Panorama do Novo Testamento – Aula 1

CREIO NAS ESCRITURAS II – PANORAMA DO NOVO TESTAMENTO – AULA 1

 

PROPÓSITO: O propósito principal do Novo Testamento é a história da vida, morte, ressurreição de Cristo, e o início da história da Igreja Cristã, tudo em cumprimento às profecias do Antigo Testamento. É uma continuidade da história da salvação, operada por Deus, cujo registro se iniciou no Antigo Testamento, e que se cumpriu na vida de Jesus, registrada no Novo Testamento. O padrão fundamental da fé e prática do discípulo se encontra no Novo Testamento. Toda a Escritura deve ser por nós interpretada à luz da vida e dos ensinos de Jesus e dos seus santos apóstolos, registrada no Novo Testamento, daí a sua importância. Tertuliano († 220) foi provavelmente o primeiro mestre cristão a utilizar o termo “Novo Testamento”.

CLASSIFICAÇÃO: Um total de 27 documentos, escritos em grego koiné (linguagem do povo comum), assim classificados:

Biográficos: Os quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João).

Histórico: Atos dos apóstolos, que relata o início da história da igreja primitiva.

Epístolas: Vinte e uma cartas. Epístola é um tipo de carta relativamente formal, muito utilizada naquele tempo.Muito interessante saber que o padrão para a nossa conduta foi moldado na prática, na história da vida da igreja primitiva.

Profético: Apocalipse de João. É a revelação final de todas as coisas, da vitória de Deus e dos cristãos contra todo o mal.

Observação: esta classificação é meramente didática, de ênfase, pois tais características, bibliográficas, históricas e proféticas se encontram misturadas nos documentos. Por exemplo, em um documento considerado biográfico, como Mateus, existe profecia. Em uma epístola, como Gálatas, existe um pouco da biografia e história de Paulo, e assim por diante.

PORQUE A NECESSIDADE DE UM CÂNON DO NOVO TESTAMENTO?

  • Necessidade de registrar a história da vida, morte e ressurreição de Cristo às futuras gerações, ante a demora da parousia, bem como diante da própria impossibilidade de se depender somente da tradição oral.
  • No início, as Escrituras cristãs eram as mesmas dos judeus (2 Tim 3.16); entretanto, foi surgindo a necessidade da igreja ter os seus próprios escritos sagrados, que os diferenciassem dos membros da antiga aliança.
  • A organização e o crescimento da igreja criaram a necessidade de documentos fundamentais.
  • O surgimento de erros doutrinários (epístola aos gálatas, contra os da circuncisão; epístola de João, contra os que negavam a encarnação de Cristo; etc), criou a necessidade de documentos escritos.
  • A própria catequese e o ensino de novos convertidos (Marcos 1.1).
  • A leitura pública determinada pelos apóstolos (Ex: Col 4.16; 1 Tess 5.27) contribui para imprimir na mente dos discípulos o senso de sacralidade dos textos. As epístolas eram reproduzidas e lidas em outras igrejas.
  • Pedro subentende que os escritos Paulinos têm o mesmo valor que as demais Escrituras (2 Pe 3.16).

 

O CÂNON DO NOVO TESTAMENTO:

Houve, durante a história da igreja primitiva, muitas tentativas de se elaborar uma lista (cânon) dos livros inspirados. Curiosamente, a primeira lista foi feita por um mestre que foi considerado herege, em 145 d.C., Marcião, que considerava inspirado somente as seguintes obras: Lc, Gl, I e II Co, Rm, I e II Tess, Laodicenses (Efésios), Col, Fil e Fil. Ele rejeitava completamente o Antigo Testamento, e retirou do novo todos aqueles escritos que considerava judaizantes. Marcião  foi condenado como herege, e a igreja reafirmou que os escritos do Antigo Testamento também eram inspirados, e que o novo testamento é o cumprimento do antigo. Daí houve tentativas para a elaboração de um cânon (lista) para o Novo Testamento, como o Cânon Muratoriano[1] e as listas de Irineu († 190 d. C.); Clemente de Alexandria († 215); Tertuliano († 220); Orígenes († 254); Dionísio de Alexandria († 264); Eusébio de Cesaréia († 340) todos com listas muito parecidas com a atual, mas ora excluindo, ora incluindo outros documentos, como por exemplo, o Didaquê dos apóstolos, Epístola de Hermas, epístola de Barnabé, etc.

A lista definitiva e que acabou sendo adotada pelas igrejas cristãs foi a de Atanásio († 373), que em 367, como bispo de Alexandria, publicou sua famosa Carta da Páscoa, contendo uma lista dos vinte e sete livros, conforme temos hoje. Atanásio foi o grande defensor da ortodoxia referente à doutrina da divindade de Cristo contra o arianismo, que a negava.

Nunca houve um Concílio universal para discutir o cânon do Novo Testamento (como o de Nicéia, que em 325, discutiu a divindade de Cristo, ou de Constantinopla, que, em 380, discutiu a divindade do Espírito Santo). Entretanto, concílios regionais confirmaram a lista de Atanásio, como o Concílio de Hipona (393) e III Cartago (397). A tradução da Bíblia para o latim (Vulgata, em 383), feita por Jerônimo, também confirmou tal lista, bem como Santo Agostinho († 430), uma das maiores autoridades teológicas da antiguidade. As igrejas da Reforma confirmaram como inspirados tais documentos e todas as igrejas cristãs concordam em relação ao cânon do Novo Testamento.

QUAIS FORAM OS PRINCÍPIOS ADOTADOS PARA SE CONSIDERAR UMA OBRA INSPIRADA?

Apostolicidade (escrito por um apostolo ou por alguém ligado a um apóstolo). Considerou-se que Marcos escreveu sob a tutoria de Pedro, e Lucas, de Paulo. Tiago e Judas foram considerados como os irmãos de Jesus, daí, seu ensino remete ao próprio Cristo, e o próprio Tiago foi bispo de grande influência em Jerusalém. Hebreus, no início, foi considerada uma epístola paulina.

Catolicidade e Antiguidade: aceitação do documento pelas igrejas mais importantes, e por um longo período de tempo.

Consistência doutrinária, ou ortodoxia: era analisado conforme o padrão do Antigo Testamento e do testemunho apostólico, segundo o ensino oral que tinham deixado à igreja primitiva.

 

BIBLIOGRAFIA

CARSON, D.A., MOO, Douglas J, MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.

HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1989.

KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982.

PEARLMAN, Myer. Através da Bíblia, livro por livro. São Paulo: Ed. Vida, 1999.


[1] O nome vem de um bibliotecário chamado Muratori. Era uma lista de livros feitas pela igreja de Roma, que inclui os quatro evangelhos, treze cartas paulinas, as três cartas de João, Judas e Apocalipse. Estão ausentes Tiago e Hebreus, e provavelmente, as epístolas de Pedro

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